4 de Dezembro de 2008

Um Banco Central paquidérmico.

Publicado por Renato Luis Bueloni Ferreira em Geral, Opinião, Conjuntura | Enviar por e-mail.

Situações excepcionais exigem medidas criativas e arrojadas. A crise que assola o mundo – e que já chegou por aqui – tem suas características peculiares e atingiu a economia real com a força de um tsunami. Os EUA declararam ontem que a recessão já dura um ano. A Zona do Euro também está em recessão. E o Brasil? Bem, nossas autoridades ainda hesitam em reconhecer a gravidade do problema.

Dados divulgados nesta semana, como produção industrial e índices de inflação (IGP-M e IPC-SP da Fipe), revelam que o horizonte para 2009 está ficando cada dia mais negro. É preciso agir com coragem e ousadia. É preciso olhar a economia real e não apenas os dados econométricos, algo que o Banco Central do Brasil vem fazendo.

A conduta do BC sob a presidência de Henrique Meirelles tem sido ultraconservadora. Meirelles está obcecado com a meta de inflação e com uma gestão que pretende ser considerada ausente de erros. Porém, se não houver tentativa, não há como errar. Ou como diz o dito popular: “quem não arrisca, não petisca.”

Todos os Bancos Centrais reduziram de forma agressiva a taxa de juros. O Copom quedou-se imóvel. Vale lembrar que o Copom, na gestão Meirelles, não usou o instrumento do viés nenhuma vez sequer. Parece faltar uma sensibilidade operacional à Diretoria do Banco Central do Brasil. Se voltarmos à crise cambial de janeiro de 1999, poderemos atribuir o sucesso na conduta da política monetária ao Armínio Fraga, operador experiente e economista de excelente reputação. Fraga agiu com ousadia. Por diversas vezes, sentou-se na mesa de operações do Banco Central e operou. Um gesto de alguém que pressentia a gravidade do momento e não escondeu-se num gabinete; mas tomou a linha de frente da batalha, como um bom general nos tempos passados.

As tentativas do BC de irrigar o mercado com liquidez não tem surtido os efeitos desejados. As taxas de juros subiram e os empresários agora fazem um movimento de capitalização das empresas. A captação líquida negativa de fundos de investimento é um indicativo claro de que estes recursos estão sendo direcionados para suprir a falta de capital de giro das empresas. Outro indicativo da falta de crédito é o aumento da procura por operações de factoring e emissão de Commercial Paper. Novamente, uma redução da taxa Selic ajudaria a reduzir spreads e as taxas de empréstimo para as empresas. O crédito é fundamental para o funcionamento do mercado, e o seu encarecimento compromete de forma efetiva a atividade econômica.

Meirelles e o Copom esquivam-se de enfrentar a realidade. Uma redução da taxa de juros é fundamental para evitar que o aperto monetário comprometa qualquer crescimento em 2009. O Governo sustenta que o país crescerá 4% em 2009. Mais um engodo! Se crescermos 2,5% no próximo será considerado um resultado satisfatório, mas isto só ocorrerá se o aperto monetário for relaxado. A atuação paquidérmica do BC poderá comprometer um ano inteiro de atividade econômica. Não basta reagir. É preciso agir para controlar expectativas e sinalizar para o mercado de que o BC atuará neste momento delicado da economia. A meta de inflação não é um fim a ser atingido a qualquer custo, principalmente quando o mundo caminha em sentido oposto.

NOTA: Renato Luis Bueloni Ferreira é advogado, mestre em Direito Comercial pela USP e Professor do MBA Executivo do Ibmec-SP e do GVLaw da FGV-SP.

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